"Todos eram convocados. Nem as crianças em idade escolar escapavam à luta."

 

Romance inspirado em factos reais. Viram a luz do dia em terras do vinho da Bairrada, desde os primeiros anos do século XX até ao grande incêndio de Outubro de 2017. No virar das páginas, sucedem-se diferentes narradores. Desafiam a imaginação do autor. Nomes, lugares e contexto acabam por ser pura ficção.

 

“… Dureza do dia-a-dia, de modo mais brutal nas primeiras décadas, é o traço dominante. Além de umas juntas de bois no amanho dos bocados de terra, a energia muscular era a força motora. Todos eram convocados. Nem as crianças em idade escolar escapavam à luta.

O mais violento de todos os trabalhos era o mantear para novas vinhas. Em terra de pousio, ou até sem haver memória de alguma vez ter sido cultivada. Acamada ano após ano, por sucessivas e milenares sedimentações. A sólida argamassa de argila amarela e calcário - o alqueve - resiste à violação.

Mas os alviões - alguns a pesar perto de cinco quilos - acabam por entrar por ela dentro, em vigorosas investidas.

Na procura do melhor balanço, os cavadores elevavam as ferramentas ao alto e bem atrás da cabeça. E aí, as leis de Newton dão uma ajuda. Aquele aço temperado, com um gemer de raiva no momento do golpe sobre o solo, libertava a energia acumulada. As brechas iam-se sucedendo, alargadas pelo enterrar simultâneo de cada par de ferramentas. Fundo e mais fundo. Até chegar à cintura dos cavadores, numa antecipada premonição do final de cada um.

O dono da terra bem conhecia o segredo para manter o ânimo do pessoal. Terras irmãs lho revelaram. Assim, o garrafão, o quarto ou a cabaça passavam, amiúde, de boca em boca. Os alviões mais e mais leves e incansáveis reconheciam a astúcia geradora de um parto em que os progenitores se viriam a rever com vaidade.”

Ficha Técnica

 

Autor / Editor : António Melo de Carvalho

Capa: Magda Alves Pereira

Ilustração da Capa: Manuel Melo de Carvalho

Impressão e acabamento: Simões & Linhares, Lda. – Coimbra

 

ISBN: 978-989-20-8664-4

Depósito Legal: 445270/18

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António Melo de Carvalho

“…. Quase cinco e meia de uma madrugada do final da Primavera. Cinco mulheres ainda jovens e uma criança, descalços como sempre, em fila indiana. Já levam mais de uma hora de passada rija. Faz-lhes companhia o ar fresco dos pinheirais que ladeiam o caminho.

Os sovacos das mulheres são o rosto das dezenas de quilos de produtos da terra, que levam à cabeça. Ora um ora outro braço mostra-lhes os primeiros alvores da manhã, para manterem a base do açafate em equilíbrio. O modo gingão do andar lembra as imagens dos atletas nas provas de marcha. Os pés nus, em diálogo com a areia do caminho, sugerem-lhes essa artimanha. No caso destas mulheres ainda mais pronunciada, no intuito de iludir o peso que as esmaga. […]Já por ali passaram vezes sem conta. Sabem estar prestes a ser vencida aquela subida final, que traz à vista o casario onde vivem as clientes. Na ânsia de alcançarem a cumeada, os movimentos coleantes, ganham agora maior amplitude. Aí sentir-se-ão como se já estivessem no mercado, com os tostões a pingar na bolsa…”

"O modo gingão do andar lembra as imagens dos atletas nas provas de marcha. Os pés nus, em diálogo com a areia do caminho, sugerem-lhes essa artimanha."